2.12.16

{Moules & Beer} Quando um prato belga se faz português

Moules & Beer, Campo de Ourique, Lisboa

Os lugares perto de casa ficam sempre para outro dia. Porque estão ali e podemos ir em qualquer altura, sem planear. E não vamos. Até ao dia em que decidem por nós e finalmente acontece. No Moules & Beer a luz que entra pelas clarabóias descobre uma sala ampla, com a cozinha ali ao lado onde os pratos tomam forma. Na parede, inscrito em lâmpadas acesas, o mote para a refeição: Moules & Beer. Deixem vir à mesa os mexilhões e nem se atrevam a não experimentar uma das muitas cervejas que povoam as prateleiras.

Se eu pudesse queria ter começado este caminho pelo mundo da cerveja antes. É que eu cresci com o vinho e durante décadas achei que não gostava de cerveja. Quis a idade dar-me uma nova perspectiva, mostrar-me esta criatura disposta a conhecer outros néctares e com coração para encontrar novas paixões. O sabor apanha-me muitas vezes desprevenida e o ritual ainda não é natural. Mas lá me vou perdendo de amores de quando em vez. A última da quais uma provocadora cerveja artesanal chamada Vadia.

Moules & Beer, Campo de Ourique, Lisboa Moules & Beer, Campo de Ourique, Lisboa Moules & Beer, Campo de Ourique, Lisboa

25.11.16

Caril de abóbora e camarão (ou como salvar o mundo)

Caril de abóbora e camarão

Aproxima-se a passos largos o final do ano, já faz frio e a febre do Natal veio para ficar. Custa-me entrar no onda, aceitar que o tempo passou depressa demais nestes últimos meses e que tenho de vestir duas camisolas. Como todas as decisões avassaladores que não são nossas, conformo-me. Volto à música em busca de ânimo, à comida que me dá protecção e às palavras que me consolam. Diz a poeta Matilde Campilho que a "poesia não salva o mundo, mas salva um minuto". E eu fico a pensar que se salvar um minuto de cada vez que uma colherada me faz sorrir, vou no caminho certo.

Este é o caril da estação. Da alquimia da mistura de especiarias ao borbulhar sereno do leite de coco, tudo parece fazer mais sentido. Depois de uma tigela desta poção o mundo fica imediatamente um lugar melhor. Nem que seja por um minuto.

Cenouras francesas Caril de abóbora e camarão

21.11.16

{Gourmet Culinary Extravaganza} Quando o jantar é na garagem

Gourmet Culinary Extravaganza, Underground Party, Conrad Algarve

Extravagância é juntar uma mão cheia de chefs estrelados e convidá-los a servir o jantar em ambiente festivo no estacionamento do Conrad Algarve. É estar preparado para a irreverência de um grupo singular onde o anfitrião Heinz Beck tem sempre um novo desafio na manga. É desafiar ainda mais alguns chefs de renome internacional a mostrar os seus pratos assinatura antes do jantar. É reunir 10 dos melhores escanções portugueses e apreciar as suas escolhas audazes para pratos complexos. Dos comensais, apenas a vontade de fazer parte de uma experiência épica. Música e luzes, mente aberta, sapatos para dançar e muita energia.

Esqueçam tudo o que sabem sobre festas de garagem. A Underground Party do Conrad Algarve é uma realidade sem par. Nas paredes é a street art dos artistas convidados a ocupar o espaço que primeiro chama a atenção. Entre carros antigos, vejo José Avillez a empratar cuidadosamente um dos seus snacks da noite. Amores perfeitos, salva e alecrim, um cenário onde pequenas pedras cinzentas servem de suporte ao que me parecem ovas. Não faço ideia como comer, nem o quê. O meu ar perdido diverte o chef que me aconselha a pegar na pedra e comer tudo. A explosão de sabor faz-me entrar no mar e (re)viver um turbilhão de memórias. Rio-me e pergunto se posso repetir. Sem esperar pela resposta como a segunda pedra e partilho um olhar cúmplice. Se o resto da noite for assim, vai ser tão emocionante como andar numa montanha russa.

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Pedras de fígado de bacalhau - José Avillez // Ostra com abóbora, sabores asiáticos, lima kaffir, citronela e especiarias - Jacob-Jan Boerma

Ainda a pensar nas pedras, encontro Jacob-Jan Boerma também ocupado com o seu snack. Ostra e abóbora, explica, são os seus ingredientes de eleição para esta noite. Estranha combinação, penso eu. E mais uma vez no intervalo de poucos minutos um chef me lê o pensamento: asian flavours will bring it together, you'll see, diz o chef holandês no seu inglês impecável estendendo-me uma taça. E, claro, tinha razão. A combinação perfeita de ácido, doce, amargo, salgado faz da abóbora o complemento certo para a ostra. Não será a minha primeira escolha para comer ostras (gosto delas ao natural) mas é um prato muito curioso.

Sigo para a bancada onde Sidney Schutte finaliza pequenos círculos dispostos sobre bonitos troncos. O chef do Librije's Zusje recheia dois crocantes de pele de galinha com uma mousse de fígado, bacon e passas e segura o tronco para que eu possa retirar um. Delicado à vista e muito saboroso na boca, é simplesmente delicioso. Desta vez não repito porque é tempo de passar à "sala de jantar" para onde se muda a boa disposição dos escanções de serviço, convidados por António Lopes, o anfitrião escanção do Gusto. Sigo as suas coloridas camisas e preparo-me para mais desafios.

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Heinz Beck, Jacob-Jan Boerma, Kevin Fehling

15.11.16

9 anos, 9 livros e um autor de eleição

9 livros e um autor de eleição

Os livros são uma espécie de caixa mágica que se pode levar para todo o lado. E eu carrego-os como se fizessem parte de mim, provando e devorando letras e imagens. Alguns devem ser mesmo ser mastigados e digeridos, como se fossem alimento. Pudesse o espaço ser infinito e mais livros viveriam entre as paredes a que chamo casa. Em 9 anos de blog, muitos autores se cruzaram comigo e muitos livros se tornaram amigos. Aprendi, sonhei e construi castelos de claras. Alguns desmoronaram, outros foram metodicamente desconstruidos. Todos foram amados mas só alguns ficaram. Estes 9 são a escolha possível, com o critério simples de voltar a eles mais vezes que aos outros.

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Tamarind & Saffron, de Claudia Roden - os sabores do Médio Oriente e os aromas de um mundo distante com receitas que me fazem viajar, como o sempre maravilhoso dukkah.

Brunch, de Cláudia Villax e Sara Lemos de Macedo - entre fotografias que são uma inspiração, as ideias para uma refeição favorita que tem sempre sabor a domingo, seja com doces ou salgados, diferente e diverso como um frasco de muesli.

Falling Cloudberries, de Tessa Kiros - um livro onde as memórias das refeições em família e as receitas que viajam de mão em mão me levam sempre de volta para a minha própria história, o tudo e nada do dia-a-dia.

The Kitchen Diaries: A Year in the Kitchen, de Nigel Slater - o diário de um ano na cozinha do rei da simplicidade, escrito com o estômago e cozinhado com o coração. Se eu não me tivesse encontrado com este livro a minha vida teria sido menos feliz.

Cozinha Tradicional Portuguesa, de Maria de Lourdes Modesto - a bíblia. Gerações e gerações de cozinheiros em Portugal são fruto deste trabalho marcante da Senhora da cozinha portuguesa. Volto a cada dúvida, em busca da receita perfeita ou quando me apetece farófias.

Flavour Thesaurus, de Nikki Segnit - combinações felizes, ingredientes que andam juntos, pares improváveis. Uma roda de sabores onde encontrar sempre inspiração para o almoço ou confirmar se ruibarbo casa com avelãs ou não.

Sabores da Provença, de Gui Gedda e Marie-Pierre Moine - a magia de ser transportado para outro lugar e sentir a energia de uma comida, ao mesmo tempo próxima e distante. Em forma de tian de pommes, um elogio à cozinha francesa embrulhada aqui nos ares do sul.

O Novo Vegetariano, de Yotam Ottolenghi - ou o porto de salvação onde termino sempre que me apetece um prato vegetariano ou uma combinação menos provável mas garantidamente infalível. Pode ser um Pilaf de trigo bulgur ou beringelas com iogurte e romã.

Food from Plenty, de Diana Henry - um livro cheio de ideias vindas de um imaginário saboroso e nunca monótono, com um piscar de olho a cozinhas de todo o mundo. A prova que a comida não precisa ser cara ou complicada para ser fantástica, como estas Lentilhas com salmão e alcaparras.

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Fico a pensar que tenho com os livros uma relação tão próxima que me leva a ter conversas com os seus autores e a convidá-los para a minha mesa. Com o respeito e o carinho que todos me merecem há um que trato como se fosso da família. E provavemente já adivinharam qual.

9 livros e um autor de eleição

14.11.16

Foodfriends e um encontro à mesa

Foodfriends, KOB by Olivier

As pessoas que gostam de comer são sempre as melhores pessoas. A frase é de Julia Child e não podia ser mais certeira. Ou não fosse uma refeição o melhor dos pretextos para encontrar amigos, pôr a conversa em dia e conhecer novos lugares. Ainda em clima de festa e no âmbito da Web Summit fui conhecer a foodfriends, uma aplicação que promete ligar pessoas à volta da mesa.

O encontro é no KOB - Knowledge of Beef e, entre 4 ou 5 nacionalidades diferentes e outras tantas línguas, vale-nos o inglês e um interesse em comum. Falamos sem parar sobre a importância que a comida tem nas nossas vidas e como essa partilha nos une. Só paramos quando chegam um pimentos padrón e uns ovos com espargos e farinheira que captam a nossa atenção e nos ocupam a boca. Não por muito tempo, que a conversa é boa e queremos todos partilhar experiências enquanto não chega o prato principal.

Foodfriends, KOB by Olivier Foodfriends, KOB by Olivier Foodfriends, KOB by Olivier